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Caravaggio, um lombardo em Minas Gerais

Não resisti a tentação de escrever outra vez sobre Michelângelo Merisi. Quando estava pensando no título, lembrei-me do querido amigo Carlo Viganò, que infelizmente não está mais entre nós. Viganò também era nascido na Lombardia, ele falava que Minas era o estado brasileiro que mais lembrava a Lombardia, talvez pelas montanhas,deixando assim mineiros e lombardos com um jeito um pouco parecido. Sei que Viganò se identificava muito com Minas, e suas vindas sempre nos trouxeram conhecimento, que ele sabia muito bem transmitir. Para mim representa muita emoção, saber que um dos lombardos mais conhecidos de todos os tempos, Caravaggio, está ali na Casa Fiat, lugar belorizontino que pertence à Nova Lima. Não resisti fui no primeiro fim de semana, uma fila que deixava quem gosta de arte feliz, afinal neste mundo de consumo de objetos, um número grande de pessoas usando seu precioso tempo para se deleitar com a obra de Caravaggio e seus seguidores é no mínimo um bom sinal.

 Toda a exposição está belíssima, mas quando fiquei de frente para o quadro San Girolamo che scrive(São Jerônimo que escreve), fiquei estática, parecia que eu estava sendo puxada para a cena, tamanha dramaticidade emanada da tela. São Jerônimo, coberto não por vestes de Cardeal, mas por um manto vermelho, apresentado como um eremita, para o qual Caravaggio se serviu de um modelo real. Ele está sentado a uma mesa cheia de livros, o manto vermelho não se adere ao seu corpo, pois a púrpura era muito preciosa e só os ricos podiam permitir-se ter. Historiadores colocam que provavelmente foi uma homenagem ao Cardeal Borghese (para quem era a obra). São Jerônimo está escrevendo a “Vulgata”, ou seja, a tradução da Bíblia do hebraico para o latin.A caveira a esquerda do quadro é símbolo da morte, da precariedade da vida. São Jerônimo está concentrado sobre o livro, em particular em um determinado ponto, aqui emerge uma sujestão visual, o observador crê entrever os olhos do santo por causa da inclinação da testa, mas na realidade Caravaggio não pintou os olhos sendo impossível vê-los. A luz entra fortemente pela esquerda na escura sala onde São Jerônimo está, colocando em evidência com grande realismo a consistência dos livros e a imagem velha e consumida do próprio santo. Caravaggio não parte do mundo das imagens para precipitar sobre a realidade, mas ascende da realidade e uma imagem dessa é representada. Todas as obras da exposição merecem um olhar aguçado coberto de sentimento, para mim faz sentido Caravaggio ser chamado de primeiro cineasta da história. Desejo que esse lombardo maravilhoso  passe lindos dias nas montanhas de Minas.

 Roseli Cordeiro Pereira

Pesquisa bibliográfica: http://www.atuttascuola.it

                                              História da arte italiana: Argan, Giulio Carlo-vol 3-ed Cosac&Naify

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O sonho de conhecer a Hungria

Na rua onde moro existem diversas lojas de eletrodomésticos, as televisões hoje finas,LCD, full Hd, reinam sobre todos os outros, afinal trazem os sonhos até nós. Fico pensando na minha infância em Itabira, onde a televisão foi chegando aos poucos, primeiro na casa dos vizinhos com maior poder aquisitivo, depois chegou à casa de todos. Elas eram bem largas, meu pai fez por correspondência um curso de como consertá-las, passava horas atrás da TV aberta, com seu multímetro testava aquele mundo de válvulas. A torre da televisão também era da alçada de todos, em Itabira um senhor com um nome diferente Rodilon Felix era quem dominava os conhecimentos relativos à TV e a torre dela. Em Dom Silvério, cidade onde passávamos férias, um senhor chamado Duia consertava TV e era responsável pela torre, chegávamos a ligar para a casa dele para saber notícias, quando a TV saía do ar. A TV saia do ar facilmente com qualquer chuva um pouco mais forte. Quando a TV em cores chegou, com ela veio mil possibilidades, no nosso bairro chegou primeiro na casa de dona Dadá de doutor Nelson. Eu e minha amiga Nilza éramos muito ligadas a Dona Dadá, organizávamos com ela coroação na igreja do Rosário no mês de maio, freqüentávamos a casa dela, colhíamos morangos. Casa linda com seus móveis de jacarandá torneados.

 Quando chegava a época dos desfiles de miss, dona Dadá nos convidava para assistir com ela, começava com Miss Minas Gerais, depois Miss Brasil e finalmente Miss Universo. Eu e Nilza chegávamos cedo, sempre muito educadas e com muito cuidado, junto com dona Dadá nos sentávamos num sofá macio e daí para frente era só magia. A cada candidata apresentada,  junto vinha um pouco de seu país. O apresentador se empolgava na hora dos trajes típicos. Não sei bem porque, mas a minha maior emoção era quando ele falava “e com vocês miss Hungria”. Meu coração saltava, minha curiosidade aguçava e naquele momento meu único desejo era conhecer aquele país distante, com trajes típicos coloridos. O tempo foi passando, mas a Hungria continuou sendo um país que despertava minha curiosidade. Na sétima série, eu e meu amigo Jardel escrevemos para várias embaixadas, inclusive da Hungria, que nos mandou lindos folhetos, enriquecendo meus sonhos.

Pois é, há uns anos atrás pude realizar meu sonho. Juntamos a família e nossas economias,voamos para Milão, alugamos um carro e nós cinco partimos, com destino a Budapeste, passando pela Slovênia e Croácia, numa linda viagem. Onde a realização de um sonho foi meu guia.

 Roseli Cordeiro Pereira

Roma e Caravaggio

Tenho falado dos inúmeros registros artísticos que Roma oferece, são inúmeros artistas, em praças, igrejas, galerias, mas, tem um artista que fala mais perto das minhas emoções e que sempre tento conhecer um pouco mais da obra dele quando retorno. Infelizmente ou felizmente ainda não conheci tudo que tem exposto dele em Roma, mas com certeza, o que já vi, vou levar como uma grande riqueza imaterial. Este artista é Michelangelo Merisi, conhecido como Caravaggio. O cineasta inglês Derek Jarman em 1986 fez um filme onde retratou a vida desse grande artista.

Para falar dele não posso deixar de falar do período em que ele viveu, afinal foi o período da contra reforma. Período conhecido como Barroco, que segundo o historiador da arte Giulio Argan pode ser definido, como uma revolução em nome da ideologia católica. No Barroco a luta religiosa não esta isolada; além do campo doutrinário, a disputa se estende ao problema da conduta humana, da política: a relação entre o indivíduo e Deus. Para os protestantes, o único liame entre Deus e o homem é a graça e nada se pode fazer para obtê-la: todo o esforço humano, toda a experiência acumulada e amadurecida no tempo, na cultura enfim, são despojados de objetivo. Os homens trabalham porque esse é o valor do pecado original; mas as obras não têm valor além da vida terrena. Os católicos afirmam, ao contrário, que Deus predispôs os meios da salvação: a natureza que criou, a história que desejou e a Igreja que explica o significado da natureza e da história, dirigindo assim ao fim da salvação o agir humano.A questão religiosa tem um aspecto social: efetivamente, a disputa é entre a fé individual dos protestantes e a fé coletiva ou de massa propugnada pela Igreja.  A cultura é um caminho de salvação, mas toda a humanidade deve salvar-se. É preciso, portanto, que a cultura penetre em todos os estratos da sociedade; que toda atividade humana, também a mais humilde, tenha uma origem cultural e uma finalidade religiosa. A técnica do artista, como a do artesão e a do operário, não tem um fim em si mesma: o que quer que se faça, faz-se para a glória maior de Deus, isto é, a obra dos homens aumenta a glória, o prestígio de Deus sobre a terra. Por isso o Barroco torna-se logo um estilo e passa da esfera da arte à dos costumes, da vida social. Confere feição, caráter, valor de beleza natural e histórica às cidades.

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Na Roma Barroca chega Caravaggio por volta dos vinte anos, nascido na Lombardia em 1571, onde permaneceu até 1606, quando teve que partir por ter matado um jovem em rixa de jogo. Ele fugiu para Nápoles, para Malta, para a Sicília e depois de novo para Nápoles. Morreu voltando para Roma após ter sido perdoado pelo Papa. Caravaggio teve uma vida desregrada e violenta, cheia de tensão moral e religiosa, o que confere a sua pintura uma carga revolucionária. Sua pintura não é observação e cópia da natureza, é a busca da dura realidade dos fatos, onde ele desdenha as convenções, e assume a máxima responsabilidade em dizer toda a verdade. Para Caravaggio a arte não é atividade intelectiva, mas moral: não consiste em apartar-se da realidade para representá-la, mas em imergir na realidade e vivê-la. O realismo de Caravaggio fez alguns estudiosos dizer que ele foi o primeiro cineasta da história.                                                                                                  Caravaggio-The Conversion on the Way to Damascus.jpg

 Como eu disse no princípio, conheço alguns locais em Roma onde têm obras dele, todas que tive oportunidade de ver, me emocionaram muito, vou citar particularmente apenas duas para não ficar enfadonho. A primeira se chama Repouso na Fuga para o Egito. Recorro a Giulio Argan que escreveu maravilhosamente sobre ela, “As figuras são apresentadas uma ao lado da outra do modo  mais simples: nenhuma ostentação de invenção, nenhum artifício compositivo. Nenhuma tentativa de heroicizar as figuras: Nossa Senhora cede ao cansaço, ao sono; José é um velho camponês indisposto, sentado sobre o saco com a garrafa aos pés, ao lado o jumento. O motivo religioso é também social: o divino revela-se nos humildes. Mas o motivo realista se transforma em mítico na figura “ideal” do anjo. Da realidade passa-se a realidade poética, ao idílio: o anjo é uma figura ideal. Mas apóia os pés na terra, entre a erva e as pedras, toca um violino verdadeiro, lê as notas no livro que São José mantém aberto diante dele”. Esse quadro é simplesmente maravilhoso e está na galeria Doria Pamphili.

O outro quadro está na capela Contarelli na igreja San Luigi dei Francese, Vocação de São Mateus,” nesse quadro vê-se o chamado direto, pessoal de Deus, que surpreende o homem quando menos o espera, talvez no pecado. Mateus era coletor de impostos. O lugar, o corpo da guarda, um ambiente apertado, fracamente iluminado por uma janela. Os jogadores não usam roupas da época de Cristo, é um fato que acontece agora e poderia acontecer a qualquer um a qualquer momento. Com Cristo e São Pedro entra uma lâmina dura de luz, atingindo as figuras, acendendo no escuro os tecidos, as plumas e os semblantes. É um raio de luz física, mas também é o raio da graça. A realidade é desvelada e queimada pela luz imprevista”.

Deixo dicas de outros lugares em Roma com obras de Caravaggio, talvez você não veja as que falei, mas quem sabe passeará pela Piazza del Popolo, então aproveite e dê uma entradinha na igreja de Santa Maria del Popolo e se deparará com lindas obras dele. Como também no Museu do Vaticano, na Galleria Borghese, nas Gallerias de Arte Antiga do Palazzo Barberini e Palazzo Corsini.Tenho certeza que a obra de Caravaggio que tiver chance de conhecer, vai proporcionar um grande momento. Afinal, um homem que viveu intensamente por poucos anos,  nos deixou um legado estupendo.

  Roseli Cordeiro Pereira

Referências bibliográficas:

Argan, C.G  História da arte italiana- vol3- editora Cosac & Naify-2003

Janson,W.H História geral da arte-editora Martins Fontes-1993

Facilitando o passeio em Roma

Para conhecer Roma é necessário muito tempo, mas um pouco de Roma sempre é possível conhecer, o tanto vai ser determinado pelo tempo disponível que o viajante tenha e pelo que ele tem interesse em conhecer. Afinal, tem Roma Imperial, Cristiana, Renascentista, Barroca, dos lindos Mosaicos Bizantinos, das grandes e pequenas praças, muitas vezes escondidas. Existem milhares de guias de Roma, vou tentar passar algumas dicas vivenciadas por mim. Ficar em Roma próximo da estação Termini, da via Cavour, da via Nazionale ou perto da Piazza di Spagna, facilita a vida do viajante, assim  é possível conhecer a pé vários lugares. Pode-se ir a pé ao Coliseu, Forum Romano, Forum Traiano, Piazza Navona, Piazza del Popolo, Piazza della República, Campo dei Fiori, via dei Condotti(onde as vitrines são um colírio para os olhos).

Roma para mim é sinônimo de andar e olhar. Para aproveitar mais o tempo durante o dia, sempre deixo para fazer uma refeição maior quando já estou querendo voltar para o hotel. Durante o dia ou carrego lanche, ou paro em algum bar para fazê-lo, Se você quiser levar o lanche, a minha dica é comprar em locais chamado Alimentari, o que se chama aqui de mercearia. Na Alimentari você encontra sucos, pães, queijos, presuntos, biscoitos, vinhos. Para pedir presunto ou queijo no balcão, fale assim, vorrei comprare um etto de formaggio granna padanno, ou parmeggiano reggiano,  ricotta(são ótimas),  mozzarella, ou peccorino(queijo de leite de ovelha). Um etto quer dizer cem gramas, due etti são duzentas gramas. Os sucos são ótimos, suco de pesca (pêssego), albicoca (damasco), pêra, mela (maçã),os biscoitos da marca Molino Bianco são deliciosos. Nas vitrines também costuma ter biscoito caseiro com mandorla (amêndoas) Quem não fala nem inglês, nem italiano e não se lembrou da dica de um etto ou due etti, também pode resolver a vida apontando o produto na vitrine para a balconista. Recomendo que a primeira coisa que temos que colocar na mala é o bom humor.

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Se você vai fazer seu lanche em um bar e gosta de café com leite, peça um café latte, é muito bom, cappucino também, café puro, peça lungo, o stretto é um dedo de café muito forte.  A água tônica gostosa se chama Acqua Brilante. Se pedir um croissant ou brioche, podem te perguntar se é svuolto(vazio) ou com marmelatta(com geléia).Tem diversos sanduíches(panino),podem perguntar se você quer freddo(frio)ou caldo(quente), eles os aquecem se você preferir. Se ver na vitrine do bar sfoglia di mela, coma, é folheado de maçã,costuma ser ótimo. Um bolinho típico de Roma se chama suppli,croquete de arroz recheado com mozzarella. A pizza ao taglio também é uma boa opção, existem diversos lugares que vendem assim, você escolhe o sabor e o pedaço. Se você estiver passeando por Campo de` Fiori, compre frutas e vá à padaria que fica no fundo e que se chama Forno Campo de` Fiori, tem cada pão bom, além da famosa pizza bianca, deixo aqui outras ,padarias recomendadas . Restaurante também  é o que não falta em Roma, site ,você pode fazer uma refeição completa, aproveite,  não deixe de pedir tiramissú na sobremesa.  Se a fome ou a grana for pouca, coma o primo piatto(primeiro prato) que é a massa (pasta) ou sopa(minestra), ou risoto. A pasta a carbonara é tipicamente romana.  Quem estiver viajando na primavera, aproveite é a hora do fritto, servem alcachofra(carciofi) , flor de abóbora(fiore di zucca), peixe, empanados e fritos. Eu gosto do sabor. Não posso deixar de falar da opção pizza que é difícil errar. E o sorvete italiano tido como o melhor do mundo, pode ser encontrado em gelaterias, em bares, a gelateria mais famosa de Roma chama-se Café Giolitti, Sorvetes de chocolate na Itália são imperdíveis, é uma experiência gustativa.

Para você se locomover em Roma uma das opções é ônibus, que lá se chama autobus, 1 bilhete custa 1 Euro, por 75 minutos.Pode-se revezar em mais de um meio de transporte, tipo ônibus e metrô. Deve ser carimbado no primeiro transporte utilizado. Se você usar no ônibus e depois no metrô, primeiro carimbe no ônibus e no metrô mostre. Existe bilhete para um dia inteiro, custa 4 Euros(biglietto giornaliero), para 3 dias custa 11Euros e para uma semana 16 Euros. Os dois principais terminais de ônibus são na Piazza del Cinquecento (praça em frente a estação Termini) e na Piazza Venezia, você pode adquirir bilhete nestes terminais, em tabacarias(Tabachi)ou em banca de jornal.Para saber local de ponto de ônibus e distância, entre no site www.atac.roma.it e pesquise seu itinerário.

Na Piazza del Cinquecento, fica o terminal dos ônibus de turismo, eles saem de 30 em 30 minutos, tem diversos tipos de bilhete, dependendo do passeio que queira fazer.Tem guia em diversas línguas e você pode descer e subir novamente no mesmo dia. Roma Cristiana custa 13 Euros, Archeobus custa 8 Euros, tem bilhete de 15 Euros e combinado de 20 Euros. Você pode comprá-los no Infopoint, telefone para reserva 06 46952252.  Para passeio de barco o site é www.battelidiroma. O metrô em Roma não tem muitas linhas, as principais são A e B. Termini é a principal estação, onde as duas linhas se encontram. Sugiro o site www.alfanet.it.

Como uma das propostas deste blog é tentar facilitar a viagem das pessoas através de informações que me foram úteis durante as minhas viagens, espero ter podido colaborar.Buona giornata a Roma.

roseli Roma

Roseli Cordeiro Pereira

Roma, eterna paixão

Ainda hoje continua o enigma histórico relativo ao fato que, no panorama de uma península povoada por pessoas de diversas origens, separadas entre elas  e desagregadas no seu interior  num certo momento fizesse emergir uma cidade como Roma, capaz de confluir todos para si com um vínculo orgânico. A posição geográfica, no centro da península, junto ao mar, com um grande rio, no ponto de encontro das caravanas entre a hegemônica Etruria, a Campanha grega (região onde está Nápoles, Salerno)  em pleno florescimento e as montanhas de Abruzzo que precisavam de sal, explica muita coisa. Mas muitas outras causas devem ser atribuídas a um especial gênio organizativo e militar que animou Roma, a capacidade que demonstrou em superar os contrastes internos entre as classes,e o forte patriotismo que a sustentou em paz e em guerra. A salvação da República  em todos os casos representava a lei suprema.

O nascimento de Roma em 754AC  trata-se de uma data estabelecida segundo um cálculo que, retrocedendo da data de introdução da República, assinala 35 anos em média a cada uma das sete gerações correspondentes aos Míticos Reis . A arqueologia confirma na realidade a constituição de um agregado citadino por volta do oitavo século, através da associação de duas vilas fortificadas (a dos “Rumi” sobre o Palatino e a dos”Titienses sabini” sobre o Quirinale), que se ajuntaram com os “Luceres “habitantes dos bosques vizinhos.

Eu sinto total fascínio por Roma, de tempos em tempos sinto uma vontade doida de voltar a esta cidade, mas para mim, viajar não depende só da vontade, tenho que planejar e economizar. Já consegui ir a Roma algumas vezes, dizer que a conheço é presunção. Penso que para conhecer o que Roma tem para oferecer em termos de história, cultura e arte, seja necessária mais de uma encarnação. Por isso que sempre na hora de ir embora, tenho a sensação de que faltou muita coisa para conhecer, mas somos seres faltosos e a falta nos impele a desejar mais. Então sugiro que joguemos a moedinha na Fontana di Trevi e sonhemos em voltar.

Os amigos muitas vezes me pedem dicas de Roma. Eu sempre peço para lembrar um pouco dos seus sonhos com relação a Roma. Sonhos, aliás, que foram muito estimulados pelo cinema. Eu, por exemplo, vi os épicos Bem Hur, Quo Vadis, Cleópatra, O Manto Sagrado, Spartacus, etc. Mais recentemente os filmes O Gladiador e o seriado Roma, tiveram grande audiência, constatando que a Roma Imperial, continua fazendo a imaginação correr livre. O maior símbolo da Roma Imperial é, sem sombra de dúvida, o Coliseu.  Confesso que quando cheguei a Roma pela primeira vez em 1994, deixei a mala no pensionato  (fica super bem localizado e as freiras que administram são brasileiras) e mais do que depressa corri para vê-lo de perto, olha que o momento foi muito além do que eu esperava. Tive vontade de jogar as mãos pro céu, ria de contentamento. A imagem do Coliseu e do Arco de Constantino são inesquecíveis, nenhuma máquina fotográfica consegue reter. Mesmo com Roma cada dia mais cheia de turistas, não importa, seja um viajante, concentre-se e deixe seu sonho conduzir o seu momento. Deixo com vocês cena do filme Spartacus de Stanley Kubrick de 1960.

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Barga, o borgo mais bonito da Garfagnana

Urnas mortuárias descobertas em diversas localidades que circundam o antigo castelo de Barga indicam que os primitivos habitantes eram liguri-apuani. A origem do nome de Barga continua incerta, para alguns paleógrafos deriva de Lucio Barcolio, lucumone de Luni, também tem quem defenda que sua origem esta ligada a Bargena, cidade da Tunísia. Segundo a história, pessoas da cidade de Bargena seguiram Aníbal 200 anos antes de Cristo e encontraram hospitalidade nesta região. Gosto de pensar na ocupação desta área por pessoas do Norte da África que seguiram um dos maiores heróis de todos os tempos, Aníbal, o homem que desafiou o Império Romano. Ele entrou na Itália pelos Alpes trazendo até elefantes. Diga-se de passagem, ele era o herói preferido de Freud. Realmente as Guerras Púnicas foram um acontecimento na história da humanidade, ler um pouco sobre esse assunto é interessante. Lá vou eu, divagando sobre história da civilização, mas agora voltemos a Barga. Na Idade Média, Barga foi um importante centro comercial, inclusive no panorama medieval representou uma singular exceção. Mesmo sob a proteção do Estado Florentino, Barga foi governada por um corpo eletivo, demonstrando uma inédita independência. Neste período ocorreu uma renovação urbana ainda hoje visível.

Andando pela cidade, nossos olhos se deparam com pracinhas e edifícios com forte influência do Renascimento Florentino. Subindo por ruelas e escadas tortuosas, a cidade se descortina num visual impagável. O Duomo dedicado a São Cristovão (patrono de Barga) parece uma fortaleza, é um lindo exemplar de arquitetura românica, do alto da cidade ele reina de forma majestosa. No seu interior, encontramos ao lado do altar, uma tribuna, com relevos da vida de Maria e de Jesus Cristo, a estátua de São Cristovão policromada é do séc. XII e também o belo crucifixo. Em julho é celebrada a festa de São Cristovão. Ao lado do Duomo está o Palazzo Pretório, sede do museu cívico do Território de Barga.

Quando revejo minhas fotos, observo meu olhar com aquele quê de encantamento. Afinal, ali a Garfagnana se apresenta em toda sua magnitude. Dá vontade de ficar.

Para chegar a Barga, continue na estrada Statale SS12, aquela que atravessa a Garfagnana a partir da cidade de Lucca. Ou, pegue o trem Lucca-Aulla e pare na estação Fornaci di Barga.

Borgo a Mozzano, onde fica a Ponte del Diavolo

Por estar em uma região protegida a oeste pelos Alpes Apuane, e a leste pelos Apeninos, a região onde está Borgo  a Mozzano sempre teve clima temperado, favorecendo a ocupação humana desde o fim da idade neolítica. Registro dessa época encontrado em escavações arqueológicas. Na Idade Média foi um antigo feudo de uma poderosa família da Lombardia, os Suffredinghi. Quando esta familia entrou em decadência, o Borgo ficou ligado a cidade de Lucca definitivamente. Passeando por suas estreitas ruas, com aspecto medieval bastante preservado, podemos sentir sua história e conhecer suas outras atrações. Como o Oratório del Crocifisso, o ex Convento di San Francesco, o ex Convento delle Suore Teresiane, o Palazzo del Vicario (hoje sede da prefeitura). A igreja de San Jacopo, construída nos séculos XI e XII e restaurada no século XVII, possui uma imponente torre dos sinos. No seu interior, belos trabalhos entalhados em madeira, uma pia batismal de 1590 e algumas estátuas de terracota vitrificada, inclusive uma Madalena de Andrea della Robbia.
A cidade cultiva azálea desde os anos 50 e tradicionalmente faz uma bela festa em sua homenagem. Este ano será nos dias 13, 14 e 15 de abril, todas as ruas da cidade ficam enfeitadas por estas belas flores. O Haloweeen,  é um dos mais famosos da Itália, chegando a receber40.000 visitantes. Afinal, a lenda da ponte faz esta data ser mais significativa, e existe um grande investimento no tema. O escritório de turismo fica na Via Umberto I-3, aberto de segunda a sexta das 9 às 13h e das 14:30 às 18h, sábado das 9 às 13h. Um passeio a Borgo a Mozzano pode ser uma boa alternativa para quem quer conhecer a Itália além dos grandes centros turísticos, pois tem uma bela combinação de história e natureza.
Descreverei um itinerário a partir  da cidade de Lucca, por ser uma cidade maior e mais conhecida. Caso esteja viajando de trem,  a linha Lucca – Aulla tem parada em Borgo a Mozzano, a viagem dura 25 minutos e tem diversos horários- a partir das 6 h da manhã, consultem o site e veja qual atende mais sua proposta. Deixo aqui uma dica a quem interessar e que não fale inglês nem italiano. Ao chegar na estação de Lucca, dirija-se à bilheteria e fale da seguinte forma: ”Vorrei comprare biglietto per andare a Borgo a Mozzano”. (Gostaria de comprar um bilhete para ir até Borgo a Mozzano) O bilheteiro pode perguntar ainda, se é andatta e ritorno (ida e volta). Não tem necessidade de escolher o horário, pois, na Itália você compra o bilhete, e você mesmo passa na máquina antes de embarcar para confirmar. São máquinas que ficam disponíveis perto do embarque.
Para ir de carro, a partir de Lucca, pegue a estrada Statale SS12 da Garfagnana. De carro, além de conhecer Borgo a Mozzano você pode conhecer outros pequenos borgos que o circundam e continuar subindo a Garfagnana em direção a Barga, mas isso é assunto para outro post.

Roseli Cordeiro Pereira