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Você sabia que a capital da Eslovênia se chama Liubliana?

29 de junho de 2012

A pergunta, ”você sabia?”, ecoava pela casa sempre que meu pai estava, ele adorava escutar a rádio relógio, que durante sua programação entremeava curiosidades às informações sobre horário, na bela voz de Iris Letieri. Eu sempre estava atenta a respeito dos países, suas capitais, seus climas, seus povos, regime político. Penso que meu gosto por curiosidades é doce influência dessa época Os países do leste europeu sempre despertaram maior curiosidade e até certo receio, eram socialistas. Desses países a antiga Iugoslávia, junto com a Hungria, sempre foram foco maior da minha atenção.Na Itabira da minha infância, onde moravam poucos estrangeiros, tínhamos um vizinho que era de lá. Para mim sua família tinha uma aura diferente, seu filho Miroslav estudou comigo, eu o enchia de perguntas sobre aquele país tão distante, ele não sabia responder, hoje avalio que ou eu era um pouco “aluguel”, ou então ele não era tão interessado. Os anos passaram, fui fazer estágio em saúde mental na cidade italiana chamada Trieste, fiquei pertinho da antiga Iugoslavia, mas como era época da guerra dos Bálcãs, não tive coragem de ir a Lubliana, capital da recém criada República Eslovena. O tempo continuou passando e a vontade de ir a essa região ficou adormecida, ao conhecer um pouco da obra do filosofo esloveno Slavoj Zizek, a vontade despertou. Quando tive oportunidade de realizar o sonho de conhecer a Hungria, convenci a família que passaríamos pela Eslovênia na ida e retornaríamos pela Croácia. Enfim um pouco da antiga Iugoslavia poderia fazer parte das minhas lembranças mais concretamente.

E agora, recordando a rádio relógio, sendo um pouco almanaque, vou fazer a pergunta. Você sabia que a Eslovênia é um país localizado na região dos Balcãs, que sua área é de 20.253 km, que faz fronteira com a Croácia, Austria, Itália e Hungria, que tem uma costa de apenas 46.6 km, que é majoritariamente católico e que sua capital Liubliana fica no centro do país? Pois é, caros amigos, nessa região inclusive foi encontrado o instrumento musical mais antigo do mundo, uma flauta doce, feita de fêmur de urso, de 50.000 anos. Nos séculos IV e III a.c chegaram os Celtas e fundaram um estado chamado Noricum, a partir daí foram dominados por Romanos, Hunos, Germânicos. Os Eslavos de quem os atuais eslovenos descendem chegaram no sec VI d.c e fundaram o ducado de Carantania. A Eslovênia também passou por domínio dos Baváros, dos Francos e de 1335 a 1809 ficou sob domínio do Império dos Habsburgos.Napoleão com seus ideais imperialistas, invadiu a região em 1809 e formou as províncias Ilíricas, compostas pela, Eslovênia, Sérvia, Croácia, Bósnia- Herzegovina e Montenegro, cuja capital era Liubliana, a forte reação da região acabou com a invasão em 1813, quando voltaram a pertencer aos Habsburgos, que posteriormente em 1867 passou a ser Império Austro-Húngaro.

A primeira Grande Guerra trouxe muito sofrimento, pois grande parte da fronteira entre o Império Austro- Húngaro e a Itália ficava na parte Eslovena. Durante dois anos travaram as mais sangrentas batalhas. Ao final da I Guerra os limites não foram estabelecidos de acordo com as fronteiras étnicas, mas de acordo com interesses políticos, um exemplo típico dessa situação é Trieste e outras cidades da costa adriática que pertenciam a Eslovênia e Croácia e que passaram a pertencer à Itália, por vontade do Reino Unido. Terras que foram prometidas do Império Austro- Húngaro, para que a Itália mudasse de lado em 1915.

Após a I Guerra foi criado o Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, este nunca foi muito pacífico, pois os estados que o compunham tinham percursos históricos diferentes. Em 1929 passou a se chamar Iugoslávia e a ser uma ditadura, os estados foram divididos em Banovinas.Em 1941, foi invadida pelas tropas alemãs e italianas, Josip Bros (que ficou conhecido por Tito) foi da resistência Iugoslava e com o final da Segunda Guerra foi nomeado primeiro ministro. Após as eleições, ganha pelos comunistas, foi proclamada a República Federal da Iugoslávia, da qual a República Popular da Eslovênia fazia parte. Tito passou a ser ditador, organizou uma economia socialista e já em 1947 toda a propriedade privada já havia sido nacionalizada.

Em 53, Tito rompeu com os países comunistas, o que não agradou a URSS, ele construiu o chamado “comunismo nacional”, que deu frutos, vivia-se melhor na Iugoslávia que nos outros países do leste. Tito morreu em 1980 e essa década viu o aumento do nacionalismo. Na Eslovênia se manifestava em revistas como Tribuna, Mladina, Problemi e Nova Revija. O ano de 1990 trouxe eleições livres e a 23 de dezembro foi realizado um referendo no qual mais de 88% dos Eslovenos afirmaram querer a independência. Em 25 de junho de 1991 declararam a independência, seguiram-se 10 dias de guerra, na qual os Eslovenos venceram os Sérvios e passou a ser o primeiro estado independente dentre as repúblicas da ex- Iugoslávia. Uma Nação que de tanto ser Nação conseguiu conquistar um Estado.

Na capital Liubliana (Ljubljana em esloveno), nós chegamos em um final de tarde nublado. Como não tínhamos feito reserva em hotel, fomos até a estação ferroviária central, onde no serviço de informações sobre hotéis nos indicaram o Hostel Celica. Não foi difícil localizá-lo, um lugar alegre com pessoas de diversas partes do mundo. Como estávamos com fome, logo pedimos dica de um lugar onde a comida e o astral tivesse a ver com o país. A recepcionista nos indicou o restaurante Sokol.

Diga-se de passagem, ótima referência, um ambiente bacana, decorado com muita madeira, aconchegante. Eu já quis logo de cara experimentar o gulash (que é originalmente húngaro) que veio numa panelinha pendurada num apoio

Quando voltei, passei alguns meses fazendo esse prato para os amigos, comprei tanta páprica na Hungria que parecia que iria abrir uma representação. Acontece comigo quando volto de viagem, fico no clima alguns meses, não importa se é no Brasil ou não. A cerveja do local é ótima, se chama Sokol também, nossa querida Eliza carregou uma garrafa de lembrança por toda a viagem, mas infelizmente a esqueceu na Itália.

Na cozinha eslovena o rolinho de farinha de trigo com recheio variável chamado Struklji é uma especialidade, junto com salsichas e queijo, principalmente da região de Bohini. O que verdadeiramente aguça o  paladar na Eslovênia são os bolos e tortas. O bolo de nozes chamado Potica é o mais famoso, Flancati e Prekmurska gibanica também são reconhecidissimos. A foto abaixo é do Prekmurska gibanica.

Prekmurska gibanica

Liubliana é uma cidade linda, sua arquitetura é principalmente austríaca, a cidade é cortada pelo rio Ljubjanica e suas margens ligadas por belas pontes, os protetores de árvores são delicadamente confeccionados em ferro, que também compõe diversos outros detalhes da cidade. O arquiteto Joze Plecnik é um esloveno com reconhecimento internacional, a Biblioteca Nacional e o Mercado Coberto são obras dele além de intervenções em traçados urbanos. Andando pela cidade que tem seu centro histórico relativamente pequeno e fácil de percorrer, nos deparamos com a bela Ponte do Dragão, a famosa Praça Preseren(homenagem ao seu mais famoso poeta), que é ponto de encontro da cidade e onde fica a entrada da igreja de São João, imortalizada no livro de Paulo Coelho “Verônica decide morrer”.

A catedral merece uma visita e claro o Castelo é o ponto alto da cidade. Os eslovenos trabalham artesanato em ferro, madeira,argila, vidro e palha, sua renda é famosa, sendo que a escola de renda de Idrija fundada em 1876, funciona até hoje.Infelizmente não foi possível ficar mais de dois dias, tínhamos muito caminho pela frente, ficamos sem conhecer muita coisa, mas o que vimos valeu a pena.

Roseli Cordeiro Pereira


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From → Eslovênia

10 Comentários
  1. Eliza permalink

    A viagem como um todo foi um espetáculo, e a Eslovênia contribuiu em muito para que se tornasse inesquecível!

  2. Helder permalink

    Roseli,

    “Uma cidade é sempre uma cidade, onde quer que ela se encontre. Seja ela Atenas, Tóquio ou Rio de Janeiro – ela sempre atrai as pessoas que vão ao seu encontro. Vão atraídas pelas suas promessas, pelos seus encantos”. Esta frase é do historiador francês Fernand Braudel. Sempre penso nela quando entro em uma cidade nova, de mim desconhecida. Quando vejo Liubliana e penso no quanto ela foi amada pelos conquistadores, lembro-me de que há algo nas cidades que as mantém eternas. Seria o nome? Seria a relação com o desejo? Seriam os encantos alcoólicos? Os gastronômicos? Sem dúvida: tudo isto nada seria sem o grande fluxo de pessoas: tão essencias para as cidades como as águas para o moinho.

    Quando te leio, Roseli, fico ávido pelo novo passeio, pelas novas surpresas, pelos sabores que virão.

    Abraços pelo blog.

    Helder.

    • Helder, o que mais gosto nas cidades são os lugares onde circulam todos, cada um carregando sua história, num anonimato saudável, onde um cafezinho rende um dedo de prosa.
      Obrigada pela companhia.Beijos Roseli

  3. Rosilda, você fica tão drummondiana citando a Itabira da infância e o rádio que ecoa poderosamente pela casa. Gostei muito do link com Zizek. Não sei se já conversamos sobre esse texto dele, de qualquer forma, recomendo: http://dafnesouzasampaio.blogspot.com.br/2011/10/vermelho-e-cor.html
    Não tenho lembranças culinárias da sua fase páprica, quando quiser reativar a representação, me convide para a degustação.
    Beijocas do oitavo

    • Naroca, a fase páprica posso retomar, alías retomo qual você desejar, sua companhia faz toda comida ficar saborosa.
      Beijos Rose

  4. Eva Lavezzo permalink

    Adorei. Eu sempre viajo com você nesse seu blog. bj.

  5. Fernanda permalink

    Marvilhoso Roseli. Sinto como se tivesse viajado com vcs. bjus.

    • Fernanda que bom que gostou,acredito que a mistura de povos que influenciou na construção de sua história, fez você ser essa pessoa maravilhosa que é.
      Beijos Roseli

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