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Roma e Caravaggio

3 de abril de 2012

Tenho falado dos inúmeros registros artísticos que Roma oferece, são inúmeros artistas, em praças, igrejas, galerias, mas, tem um artista que fala mais perto das minhas emoções e que sempre tento conhecer um pouco mais da obra dele quando retorno. Infelizmente ou felizmente ainda não conheci tudo que tem exposto dele em Roma, mas com certeza, o que já vi, vou levar como uma grande riqueza imaterial. Este artista é Michelangelo Merisi, conhecido como Caravaggio. O cineasta inglês Derek Jarman em 1986 fez um filme onde retratou a vida desse grande artista.

Para falar dele não posso deixar de falar do período em que ele viveu, afinal foi o período da contra reforma. Período conhecido como Barroco, que segundo o historiador da arte Giulio Argan pode ser definido, como uma revolução em nome da ideologia católica. No Barroco a luta religiosa não esta isolada; além do campo doutrinário, a disputa se estende ao problema da conduta humana, da política: a relação entre o indivíduo e Deus. Para os protestantes, o único liame entre Deus e o homem é a graça e nada se pode fazer para obtê-la: todo o esforço humano, toda a experiência acumulada e amadurecida no tempo, na cultura enfim, são despojados de objetivo. Os homens trabalham porque esse é o valor do pecado original; mas as obras não têm valor além da vida terrena. Os católicos afirmam, ao contrário, que Deus predispôs os meios da salvação: a natureza que criou, a história que desejou e a Igreja que explica o significado da natureza e da história, dirigindo assim ao fim da salvação o agir humano.A questão religiosa tem um aspecto social: efetivamente, a disputa é entre a fé individual dos protestantes e a fé coletiva ou de massa propugnada pela Igreja.  A cultura é um caminho de salvação, mas toda a humanidade deve salvar-se. É preciso, portanto, que a cultura penetre em todos os estratos da sociedade; que toda atividade humana, também a mais humilde, tenha uma origem cultural e uma finalidade religiosa. A técnica do artista, como a do artesão e a do operário, não tem um fim em si mesma: o que quer que se faça, faz-se para a glória maior de Deus, isto é, a obra dos homens aumenta a glória, o prestígio de Deus sobre a terra. Por isso o Barroco torna-se logo um estilo e passa da esfera da arte à dos costumes, da vida social. Confere feição, caráter, valor de beleza natural e histórica às cidades.

            The Fortune Teller-Caravaggio (Louvre).jpg                            

Na Roma Barroca chega Caravaggio por volta dos vinte anos, nascido na Lombardia em 1571, onde permaneceu até 1606, quando teve que partir por ter matado um jovem em rixa de jogo. Ele fugiu para Nápoles, para Malta, para a Sicília e depois de novo para Nápoles. Morreu voltando para Roma após ter sido perdoado pelo Papa. Caravaggio teve uma vida desregrada e violenta, cheia de tensão moral e religiosa, o que confere a sua pintura uma carga revolucionária. Sua pintura não é observação e cópia da natureza, é a busca da dura realidade dos fatos, onde ele desdenha as convenções, e assume a máxima responsabilidade em dizer toda a verdade. Para Caravaggio a arte não é atividade intelectiva, mas moral: não consiste em apartar-se da realidade para representá-la, mas em imergir na realidade e vivê-la. O realismo de Caravaggio fez alguns estudiosos dizer que ele foi o primeiro cineasta da história.                                                                                                  Caravaggio-The Conversion on the Way to Damascus.jpg

 Como eu disse no princípio, conheço alguns locais em Roma onde têm obras dele, todas que tive oportunidade de ver, me emocionaram muito, vou citar particularmente apenas duas para não ficar enfadonho. A primeira se chama Repouso na Fuga para o Egito. Recorro a Giulio Argan que escreveu maravilhosamente sobre ela, “As figuras são apresentadas uma ao lado da outra do modo  mais simples: nenhuma ostentação de invenção, nenhum artifício compositivo. Nenhuma tentativa de heroicizar as figuras: Nossa Senhora cede ao cansaço, ao sono; José é um velho camponês indisposto, sentado sobre o saco com a garrafa aos pés, ao lado o jumento. O motivo religioso é também social: o divino revela-se nos humildes. Mas o motivo realista se transforma em mítico na figura “ideal” do anjo. Da realidade passa-se a realidade poética, ao idílio: o anjo é uma figura ideal. Mas apóia os pés na terra, entre a erva e as pedras, toca um violino verdadeiro, lê as notas no livro que São José mantém aberto diante dele”. Esse quadro é simplesmente maravilhoso e está na galeria Doria Pamphili.

O outro quadro está na capela Contarelli na igreja San Luigi dei Francese, Vocação de São Mateus,” nesse quadro vê-se o chamado direto, pessoal de Deus, que surpreende o homem quando menos o espera, talvez no pecado. Mateus era coletor de impostos. O lugar, o corpo da guarda, um ambiente apertado, fracamente iluminado por uma janela. Os jogadores não usam roupas da época de Cristo, é um fato que acontece agora e poderia acontecer a qualquer um a qualquer momento. Com Cristo e São Pedro entra uma lâmina dura de luz, atingindo as figuras, acendendo no escuro os tecidos, as plumas e os semblantes. É um raio de luz física, mas também é o raio da graça. A realidade é desvelada e queimada pela luz imprevista”.

Deixo dicas de outros lugares em Roma com obras de Caravaggio, talvez você não veja as que falei, mas quem sabe passeará pela Piazza del Popolo, então aproveite e dê uma entradinha na igreja de Santa Maria del Popolo e se deparará com lindas obras dele. Como também no Museu do Vaticano, na Galleria Borghese, nas Gallerias de Arte Antiga do Palazzo Barberini e Palazzo Corsini.Tenho certeza que a obra de Caravaggio que tiver chance de conhecer, vai proporcionar um grande momento. Afinal, um homem que viveu intensamente por poucos anos,  nos deixou um legado estupendo.

  Roseli Cordeiro Pereira

Referências bibliográficas:

Argan, C.G  História da arte italiana- vol3- editora Cosac & Naify-2003

Janson,W.H História geral da arte-editora Martins Fontes-1993

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From → Roma

19 Comentários
  1. Helder permalink

    Roseli,

    Sempre gostei muito de Caravaggio.
    O inesperado da luz, de fato, surpreende. É como se tudo estivesse escuro e, de súbito, ele projetasse a luz com seus pincéis, revelando os rostos e as emoções.
    O que é inesperado em Caraggio é que ele pode, subitamente, escurecer tudo.
    Então, o que vale é o contrário.
    A luz cobria todos os rostos e ele, cuidadosamente, vai escondendo as feições com as sombras de seus pincéis.
    Gosto dele dos dois modos: iluminando ou escurecendo – porque eu acho que tem coisas que não são para os olhos, mas para o segredo e a cumplicidade da penumbra.
    Sabe o que mais gosto dele?
    A ceia dos discípulos de Emaús – que eu considero o quadro mais quente.
    O êxtase de São Francisco de Assis – que eu considero o mais tépido.

    Lindo o Caravaggio. Parabéns pelas escolhas.

    Beijos.

    Helder.

  2. permalink

    Rô.
    Que maravilha!
    O amigo Helder falou tudo.
    Beijos
    Zenaide

  3. Eliza permalink

    Sensacional Rose!

  4. Cristiano permalink

    Muito legal obter estas informações através de você que nos influenciou e ajudou em relação a oportunidade que tivemos em nossa viagem a Itália. As obras de Caravaggio marcaram nossa experiência cultural no país da bota. Abração

    • Cristiano, você é sortudo,já vai para Roma outra vez.Desejo que cada vez seja melhor.Mostre para seu querido pai as belezas que você gostou tanto.
      Abraços Roseli

  5. Mônica Mattos Chartuni permalink

    Roseli,

    Adimirar Caravaggio sem dúvida é o “mistério” que nos toca e move.
    Visualizar Caravaggio é emocionante, algo inesquecível para as pupilas e mente.
    Parabéns, querida,

    Mônica.

    • Mônica que bom que Caravaggio trouxe momentos mágicos para você. Para mim estas obras enriqueceram nosso planeta.
      Beijos Roseli

  6. Lucimar permalink

    Querida Roseli,

    Fascinante!!! Fiquei querendo saber mais e mais… Me instigou a pesquisar e buscar outras obras de Caravaggio.
    Nas obras que vi achei incrível o foco luminoso destacado no fundo sombrio. Admirável …
    Abs,

    Lucimar

    • Lucimar, Caravaggio vai dando vontade na gente de ver mais e mais e mais. Vamos apaixonando por este homem tão instigante.
      Beijos Roseli

  7. Maria Helena Boratto Jabur permalink

    Estou cada vez mais fascinada!Obrigada minha amiga.
    Beijos.Maria Helena

    • Querida amiga, é muito bom ver seu comentário,.Aprecio sinceramente sua sensibilidade, além de saber do significado de Caravaggio para você. Beijos Roseli

      ________________________________

  8. Maria de Fátima Marques permalink

    Chamo isso de combinação da letra R: ROSA, ROSE, ROSELI E ROMA tudo isto são maravilhas pra elogiar o bom gosto de ROSELI. Amei sua declaração! Muito bacana sua paixão por CARAVAGGIO. Esse conhecimento que talvez poucos sabem admirar com olhos e coração assim bom. Viajei durante a leitura de sua declaração. Valeu Rose!

    BEIJOS

    • Fatinha, que bom ler seu comentário,você é uma pessoa sensível, e a arte nos faz ficar cada vez mais.
      Beijos para você e cia. Roseli

  9. M. Lourdes Marra de Aquino permalink

    Adorei as dicas de Roma. Já está tudo guardado, pois, não conheci quase nada de Roma, mas, hei de voltar!!!
    Abração!!!

  10. Luzmarina permalink

    Tenho que concordar , ao ler, que uma vida é pouco para conhecer Roma.

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