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“Ao sul, ao sul, está quieta esperando Montevidéu”

                                                                                                       Pasatiempo

                                                                                                                                   Mario Benedetti

Cuando éramos niños
los viejos tenían como treinta
un charco era un océano
la muerte lisa y llana
no existía

luego cuando muchachos
los viejos eran gente de cuarenta
un estanque era océano
la muerte solamente
una palabra
,
ya cuando nos casamos
los ancianos estaban en cincuenta
un lago era un océano
la muerte era la muerte
de los otros

ahora veteranos
ya le dimos alcance a la verdad
el océano es por fin el océano
pero la muerte empieza a ser
la nuestra.

Devo a querida amiga Daniela o prazer de me apresentar a obra do grande escrito uruguaio Mario Benedetti,  ao visitá-la em Brasilia a encontrei encantada com o livro A Trégua, durante minha estadia leu algumas belas passagens para mim e na hora da minha partida carinhosamente me presenteou com o livro, o qual avidamente devorei. Daquele momento em diante a paixão se instalou e uma viagem ao Uruguai começou a passear pela minha cabeça, mais precisamente Montevideu, cidade onde Benedetti eterniza  em diversas obras suas, praças, esquinas, ruas, cafés e principalmente o jeito de ser do montivideano. Andar por Montevidéu é simplesmente delicioso, as pessoas andam sem pressa, não se ouve buzinas,é o compasso dos passos.Penso que os uruguaios sabem que o tempo presente é o mais precioso que temos, então eles o usufruem com tranquilidade, vão devagar, tomam café devagar, afinal sabem viver. 

Palácio Salvo- Montevidéu

Palácio Salvo- Montevidéu


Eu e Roberto seguimos o ritmo uruguaio através do traçado de Benedetti, inclusive a fundação Mario Benedetti lançou o Guia Benedetti, que está no site e é distribuído na  Puro Verso,  linda livraria que merece uma visita prolongada, nos seus dois endereços. O guia traz citações de ruas onde viveu, lugares onde trabalhou, cafés presentes em sua obra e cafés que ele frequentava, o Café Brasileiro(também frequentado por Eduardo Galeano), o Café Las Missiones citado no livro A Trégua, o ex Café Sorocabana, hoje Big Mamma onde escreveu a maior parte do livro A Trégua.

Parte superior do Café Big Mama, antigo Café Sorocabana, onde Benedetti escreveu grande parte do livro A Trégua.

Parte superior do Café Big Mama, antigo Café Sorocabana, onde Benedetti escreveu grande parte do livro A Trégua.

O interessante é que são belos cafés, mas são sem ostentação, o uruguaio é sábio e simples. É muito bom sentar em um café em Montevidéu, com uma nesga de sol perpassando um xícara de café enquanto uma medialuna(croissant) gruda no céu da boca. Momentos como diz Daniela inenarráveis.


Benedetti foi exilado político, viveu no Peru, Cuba, Argentina e Espanha, muitos dos seus livros tratam desta temática  e que a mim também interessa muito, sendo assim não poderíamos deixar de visitar o Museu de la Memória, onde a história da ditadura militar no Uruguay e em outros países da América Latina é contada, para nunca ser esquecida. Ficamos completamente sem palavras ao acompanhar a exposição em homenagem a “tres luchadoras sociales,Silvia Reyes, Diana Maidanic y Laura Raggio”, as três foram cruelmente assassinadas pela policia da ditadura, duas tinham apenas 19 anos e Silvia com 21 anos estava grávida. Na exposição estão suas fotos, cartas de quando estiveram presas e até uma boneca de pano confeccionada por Diana.
Não consigo entender como seres humanos são capazes de cometer estas atrocidades e continuam impunes ainda no Uruguai e no Brasil, ainda bem que a comissão da verdade tem nos trazido conforto.O museu no momento também apresenta outra exposições muito interessante,  sobre”los vuelos de la morte “que trata da operação Condor que consistia em jogar de pleno voo pessoas vivas para o mar, a operação foi coordenada pelas ditaduras do Brasil, Argentina, Bolívia, Uruguai, Paraguai e Chile. A exposição está primorosa, nos levando a profundas reflexões, aliás todo o museu nos faz refleti muito.

O segundo macacão era o uniforme de presidiário do grande presidente Mujica, que foi preso político. Lutou contra a ditadura no Uruguai.

O segundo macacão era o uniforme de presidiário do grande presidente Mujica, que foi preso político. Lutou contra a ditadura no Uruguai.

Museu de la Memória

Museu de la Memória

Deixando as tristezas de lado, passear pela feira de domingo que acontece na rua Tristan Navajo e segue através de diversas outras ruas  é um prazer, frutas, legumes, livros, artesanatos e antiguidades se entrelaçam com sons de grupos musicais, uma verdadeira festa.

Feira Tristan Navajo

Feira Tristan Navajo

Pelos passeios, as lojas de antiquariato, sebos e cafés  ficam abertos nos convidando  a entrar, inclusive indico o sebo Babilônia, o lugar é muito bacana e o vendedor um apaixonado pelo oficio, dá gosto ver. Na área onde concentram as bancas de antiguidade, claro que me seduziram e não resisti, comprei um conjunto de borrifador de perfume antigo, preço ótimo, vendedora que também vende rendas e paninhos antigos é uma pessoa muito agradável. Com as sacolas na mão, fomos andando e dei-me conta quando parei no Bar Sportman(também citado na obra de Benedetti), que havia esquecido dos borrifadores, lá fui eu novamente correr a longa feira atrás dos meus mimos. Graças a Deus lá estavam  me esperando e a senhora aliviada por eu ter voltado.

Sebo Babilônia, Calle Tristan Navajo

Sebo Babilônia, Calle Tristan Navajo

Nos dias que ficamos em Montevidéu fomos algumas vezes ao Bar San Rafael, simpático bar restaurante localizado na calle San Jose, esquina com a calle Zelmar Michelini, nesse bar Benedetti fazia diariamente suas refeições nos seus últimos anos de vida, lá uma foto sua sinaliza seu local preferido, claro ao lado da janela, onde podia observar o correr da vida.Na janela está plotado seu poema Pasatiempo, com o qual começo este post. Além de comida boa com preço justo os garçons são ótimos e recordam com carinho da figura extraordinária que foi Benedetti, simples, amável e bem humorado. Não posso deixar de falar de outros prazeres que tive em Montevidéu, como ir ao Mercado del Puerto e comer a deliciosa carne uruguaia, fomos ao restaurante Dom Garcia, mais simples que os outros e frequentado na sua grande maioria por nativos, o atendimento é alegre e cordial, fica  no fundo e não aparece como os outros.Depois pegamos um taxi e fomos conhecer o Taller Girosur, este precioso atelier faz artesanalmente relógios, bússolas e mapas, que funcionam ao contrário e são lindamente decorados. Os artesãos proprietários Ernesto e Aldo são extremamente gentis e pacientemente nos explicou que a realização desses relógios, bussolas e mapas surgiu do desejo de reconstruir a orientação natural que nos dá a região que pertencemos. Utilizando o giro que harmoniza com o hemisfério. Ressaltando a importância do Sul para mudar o olhar e não medirmos mais pelos olhos dos outros, tanto econômica quanto culturalmente.O trabalho também é apoiado na visão do artista Torres Garcia, que em 1946 fez um mapa com a mesma direção. Merece uma visita, e não pensem que chegaram ao lugar errado, pois realmente não existe placa do atelier, mas é só tocar a campainha no número 2065 da Calle Justicia que você será muito bem recebido.

Outro lugar que visitamos e que não poderia deixar de contar um pouquinho foi a visita ao Museu Andes 1972, que conta a história dos sobreviventes da queda do avião que  em 1972 levava quarenta e cinco uruguaios, na sua maioria jogadores de rúgbi amador e se chocou contra uma montanha nos Andes, vinte e seis sobreviveram ao choque, mas só dezesseis conseguiram sobreviver até serem resgatados, foram 72 dias cercados por rocha e gelo a temperaturas baixíssimas, quase sem alimentos, ficaram conhecidos como “Sobreviventes dos Andes” e foram tema de filme e de livros. O museu conta esta história através da exposição de partes do avião, objetos pessoais dos passageiros e de descrição detalhada dos 72 dias, em posteres. O que achei mais legal na visita é que após percorrer a exposição uma senhora aborda o público e pergunta se deseja saber mais, como gosto de uma boa história, ela nos contou em detalhes tudo que queríamos saber, de como os sobreviventes se organizaram e fizeram rotinas, de como estavam habituados a trabalhar em equipe, da decisão de comer carne de companheiros que haviam morrido como única alternativa para sobreviver. Tivemos a oportunidade de conhecer o senhor que montou o museu e que nos falou do mesmo como um espaço para treinamentos motivacionais. Vale a pena conferir.

Para concluir não poderia deixar de falar no uruguaio mais famoso do momento, o presidente Mujica, queria muito vê-lo, mas não foi possível, na semana que passei em Montevidéu ele estava com dores na coluna, mas mesmo assim fui ao palácio de governo, onde me disseram que ele costuma sair pelos fundos no seu fusquinha, cheguei até a procurar, mas não vi, deixei meu abraço com o guarda, afinal tantos amigos pediram que eu transmitisse abraços que a pessoa com mais probabilidade de vê-lo que encontrei foi o guarda. Sem problemas, a viagem foi linda e fechamos com chave de ouro ao sairmos atrás do tambores que tocam Candombe.Domingo a noite em uma esquina no bairro Sur rapazes vão chegando com os tambores, fazem uma fogueira e em  volta dela os colocam para esquentar, depois calmamente vão buscando o ritmo lindo e pulsante, saem tocando e nós maravilhados atrás. Procure se informar caso queira conferir, é sempre no bairro Sur,por volta das 19 horas, nos informaram que os encontraríamos na Calle Gonzalo Ramirez com Aquiles Lanza, mas acabamos os vendo na Calle Soriano com Av Constituynte, por isto é melhor conferir no seu hotel ou com taxista. Boa dica, táxi em Montevidéu custa pouco e os taxistas têm  um ótimo papo, inclusive são guias de detalhes interessantes. Agradeci a Deus mais esta viagem e por ter meu maravilhoso companheiro que as fazem muito melhor. E como disse Benedetti ” Ao sul, ao sul, está quieta esperando Montevidéu”.

Dedico este post a amiga Daniela Guimarães Araujo.

Roseli Cordeiro Pereira

“Argentario – Retrato de costa revelada”

screenshot 1

Faz um bom tempo que não publico aqui no blog e hoje retorno para  divulgar um iBook, cujo título achei belíssimo “Argentario – Retrato de costa revelada”. O fotografo Andrea De Maria dedicou sua última obra à terra que tanto ama, um livro fotográfico que além de ter 70 imagens estupendas, traz ao leitor a possibilidade de saborear e descobrir a beleza deste ângulo de Toscana, não só com as imagens, mas também com os textos de Eugênia Cerulli, ricos de anedotas e informações. A diagramação foi cuidadosamente feita por Michele Gravina, apresentando as fotos de forma agradável,  áreas sensíveis que ao toque trazem maiores informações e ângulos que revelam particularidades curiosas. O iBook também traz um pequeno mapa desenhado a mão por Fabio Tarantino com os maiores pontos de interesse do Argentario. A adaptação editorial é feita por Tiziana Rosa.

screenshot 2      As pessoas que se interessarem poderão adquirir o iBook em italiano ou em  inglês                                           https://itunes.apple.com/it/book/argentario/id645100975?mt=11

                                                  https://itunes.apple.com/us/book/argentario-unveiled-coast/id654933819?l=it&ls=1

Desejo a todos uma linda viagem virtual. Até a próxima. Roseli Cordeiro Pereira

Orvieto, cidade italiana que inspirou texto de Freud

No texto “O esquecimento dos nomes próprios de 1901”, Freud faz referência a um fato acontecido com ele, em um trem. Segundo Freud, ao perguntar a seu companheiro de viagem se ele já tinha ido a Orvieto e visto os afrescos de….“o nome que tentei lembrar em vão no exemplo escolhido para análise em 1898, foi o do artista que pintou os magníficos afrescos das “Quatro últimas coisas” (a morte, o juízo, o inferno e o céu), na catedral de Orvieto,em vez do nome que eu procurava-Signorelli- impunha-se a mim os nomes de dois outros pintores Botticelli e Botraffio.

Quando li o texto de Freud, a pergunta sobre conhecer Orvieto ficou na minha cabeça e esta cidade situada na região da Úmbria na Itália entrou na minha lista de cidades que eu me esforçaria para conhecer. E hoje posso dizer que conheci Orvieto, os lindos afrescos de Luca Signorelli e tantos outros encantos que esta cidade coleciona.

A cidade de Orvieto foi um florescente centro etrusco entre os séculos VII e III a.C, nos restos das necrópolis de Cannicella, do Crocifisso e do templo do Belvedere, o viajante pode ter conhecimento desta época. Na alta idade média a cidade foi objeto de conquistas e reconquistas dos godos e bizantinos, até tornar-se sede de contea sob o domínio dos longobardos. Nos séculos XI e XII a cidade se constitui e no ano de 1157 será reconhecida, pelo Papa Adriano IV. No século XIII são edificados os primeiros edifícios românicos, muito bem representados pelas igrejas, de S. Andrea, de S.Giovenale, como também pelo grandioso palazzo Del Popolo. Eis, que na virada do século XIII, chega o estilo gótico e nesta cidade deixa através do Duomo uma das maiores representações deste período na Itália. A cidade passou por diversas lutas civis, com o poder oscilando entre o pontifício e outros senhores, que só terminou em 1448 com a definitiva dedicação ao papa Nicolò V. Nas épocas sucessivas não ocorreram construções de grandes monumentos, mas a cidade foi agraciada com belas edificações e também com o Pozzo di San Patrizio( construído entre 1528 e 1537), com a proposta de trazer autonomia hídrica a cidade. Uma coisa importante que não comentei é que Orvieto foi edificada no topo de uma montanha, com esta localização não foi necessário construir uma muralha.

O que me levou a Orvieto foi o Duomo, vou falar um pouquinho mais dele. Pois é, caros amigos a construção do Duomo é cheia de fatos interessante, um deles é que no lançamento da obra o papa Nicolò com sua corte desceu na profunda escavação, sob os olhos das autoridades e dos senhores de todo o Estado. O papa estava verdadeiramente empenhado para conseguir o financiamento necessário para a realização da ambiciosa obra, cuja garantia foi dada por uma adequada política fiscal, recolhendo tributos e criando um organismo de gestão (A obra do Duomo).

O inicio da obra se deu em 1290, até hoje não se tem registro de quem foi a autoria do projeto, mas sabe-se que a partir de 1308 Lorenzo Maitani deu continuidade ao mesmo e é a quem se atribui a fachada e a parte terminal.É tida como uma das mais significativas criações da arquitetura gótica italiana,a fachada foi completada no séc XVI, tem a forma de um grandioso tripitico, de mármore policromado, esculturas e mosaicos. A rosácea central e o amplo e profundo portal mediano são obra de Andrea Orcagna,as quatro pilastras entre os portais são revestidas de relevos inspirados na sagrada escritura (história do antigo e novo testamento, vida de Cristo e juízo universal), obra  de Lorenzo Maitani e ajudantes, aos quais também se deve os símbolos em bronze dos evangelistas sobre as pilastras. Tem outros detalhes, tanto no exterior quanto no interior, mas me deterei na capella di S. Brizio, onde estão localizados os afrescos de Luca Signorelli, que levou o sensível Freud à cidade de Orvieto.

 Os afrescos foram iniciados pelo artista Beato Angelico (1477), com ajuda de  Benozzo Gozzoli e de outros, foram completados por Signorelli entre os anos de 1477 a 1504,com o tema Finimondo(fim do mundo).Luca Signorelli, nasceu em Cortona em 1445 e morreu também lá em 1523.Segundo Vasari em sua famosa obra de 1568 “A vida dos mais excelentes pintores, escultores e arquitetos”,  escreve que Luca Signorelli estudou com o mestre de Sansepolcro Piero della Francesca, fato não comprovado totalmente. Vasari escreve também que “Luca foi uma pessoa de ótimos costumes, sincero e amável com os amigos e de conversação doce e principalmente cortês com aqueles que se interessavam por sua obra, alem de ser fácil no ensinar aos seus discípulos”. Luca trabalhou na decoração da Capela Sistina em Roma, primeiro como ajudante de Perugino e depois como titular, a cena Testamento e morte de Moisés é atribuída a ele.  Em  Orvieto na Capela de San Brizio, Singnorelli  deixa definitivamente sua marca como magnífico pintor. O pintor Beato Angelico e ajudantes fizeram os profetas com Cristo Juiz no coros de santos em volta da capela.Signorelli fez nas lunetas da esquerda, a Predicação do Anticristo(os dois personagens em negro são retratos de Signorelli e do Beato Angélico).O Fim do mundo, a Ressureição da carne, o inferno, a Separação dos eleitos e dos reprovados, o Paraiso; Nos afrescos retratou poetas de Homero a Dante e também em uma parede se encontra a Deposição da Cruz.

                                                                             

   

   

 O Duomo de Orvieto e Capella di San Brizio estão abertos: novembro a fevereiro de 9:30 às 13:00 e de 14:00 às 17:00-março e outubro 9:30 às 18:00- abril a setembro 9:30 às 19:00- domingos e feriados novembro a fevereiro14:30 às 17:30-março, abril, maio e outubro de 13:00às 17:30-junho, julho, agosto e setembro 13:00 às 18:00. O Tel da bilheteria è 0763-343592, o e-mail é biglietteria@operadelduomo.it, custa 3,00 euros. Orvieto além de rica em história também é rica em artesanato em cerâmica, madeira e bordado, é uma cidade de bom vinho e rica em  gastronomia.   Facilmente se chega a Orvieto, que fica na parte sudeste da Umbria, faz divisa com a cidade, de Viterbo na região do Lazio e com Grosseto e Siena na região Toscana. Pode-se chegar a Orvieto de carro ou de trem, fica a 1 hora de Roma e 1:40 de Florença, a malha ferroviaáia que atende a cidade é Roma-Firenze-Milano, sugiro pesquisa no site www.orvietoviva.com.it .

Boa Viagem,

Roseli Cordeiro Pereira

Roma, lugares, detalhes

Sempre que penso em voltar a Itália, já começo a pensar nos novos lugares que visitarei em Roma, esta cidade tem tantas maravilhas, que nem algumas incarnações me fariam conhecê-la toda. Cada viagem degusto alguns de seus detalhes e hoje reconto alguns bons momentos passados em seus cantos e encantos. A experiência vivenciada por mim aconteceu quando viajei para a Itália e decidi ficar em Roma por três dias antes de seguir viagem. Era a minha primeira viagem sozinha para fora do Brasil, claro que fiquei no velho conhecido pensionato na Piazza Madonna dei Monti, Casa Santa Sofia. Enfrentei os medos, pois, o que importava era que novamente eu poderia conhecer um pouquinho mais de Roma, com mapa na mão saía cedo do pensionato, passeava, passeava, às vezes sentia falta de companhia, mas quando eu parava para um café latte, ou uma água, puxava um dedo de prosa, que às vezes rendia, outras não. Nestes passeios procurei conhecer algumas igrejas com mosaicos bizantinos e outras tantas belezas romanas. Vou contar um pouquinho sobre a linda Basílica de Santa Prassede (em português, Santa Poliana) e outros lugares.

 Segundo a lenda, Prassede, junto coma irmã Pudenziana, à qual é dedicada a igreja vizinha e que tem o seu nome, era filha do senador cristão Pudente, ela junto com a irmã foi martirizada depois de ter recolhido com uma espuma e virado em um poço o sangue de cristãos mortos. O lugar de devoção a Santa Prassede tem origem muito antiga, perto deste local foi construída a basílica, pelo papa Pasquale I (817-824), ao seu lado foi construído um convento de rito grego. Foram transferidas para lá relíquias de dois mil mártires. A igreja sofreu restauração no sec. XII e também no sec. XVI, depois de 1870 o convento foi destruído e substituído por uma escola.Esta igreja tem diversas obras de arte, inclusive a primeira obra de Bernini, quando o mesmo tinha dezesseis anos, monumento ao bispo G.B.Santoni, mas vou me deter na capela de San Zeno. A capela é considerada o monumento mais importante de arte bizantina em Roma, ela foi erguida pelo Papa Pasquale I, como mausoléu para sua mãe Teodora. O acesso a capela se dá por um portal enquadrado por duas colunas de mármore negro, colunas sobre as quais se apóiam uma bela trave horizontal que sustenta uma urna do século III. Os batentes da porta são cuidadosamente trabalhados, acima da porta, em volta da janela existem lindos mosaicos onde figuram a Nossa Senhora com Jesus menino e Santos, na parte mais externa Cristo e os Apóstolos. O interior da capela é de grande sugestão, ainda que de dimensão limitada, é sustentada por quatro colunas de granito, em volta dos quais elegantes anjos sustentam um escudo redondo com Cristo que abençoa. Nas lunetas e em um pequeno vão, outros mosaicos com Santos Mártires e também um com Teodora mãe do Papa Pasquale I. Nesta capela também se conserva a coluna da flagelação, fragmento de uma coluna que pertencia ao pretório de Pilatos, na qual Jesus Cristo foi flagelado, foi trazido de Jerusalém em 1223. Esta capela é de tirar o fôlego, meus olhos foram passeando pelos mosaicos, tentando reter as cores e as figuras. Dentro desta igreja confirmei que para conhecer obra de arte, não importa se está sozinha, as obras nos fazem companhia, viajamos vários séculos através delas. A igreja tem uma fachada simples, numa Roma onde a opulência barroca fala alto, ela quase passa despercebida, mas retrata o período da sua construção, ela é uma Igreja Medieval. Existem outras igrejas em Roma com mosaicos maravilhosos, na Basílica de Santa Pudenziana ao lado da de Santa Prassede, na Basílica de Santa Maria Maggiore, na Basílica de San Giovanni in Laterano, na Basílica de São Pedro e outras. A Basílica de Santa Prassede está localizada na via di Santa Prassede- 9 a. Horário de visita- 07h30min as 12h00min e de 16h00min as 18h00min. A entrada é pela lateral e gratuita. As três igrejas, Santa Prassede, Santa Pudenziana e Santa Maria Maggiore, ficam na região do centro histórico e são bem perto uma da outra. É um passeio que vale a pena fazer.

O viajante pode gostar de se sentir livre e andar sem muito destino, querendo sentir o clima da cidade e das pessoas que vivem ali. Sugiro um passeio pela região de Campo dei Fiori, onde diariamente acontece uma feira livre pela manhã, com frutas, verduras, flores, dá para sentir o pulsar do cotidiano romano. Bem pertinho dali está o belíssimo Palazzo Farnese (sede da embaixada francesa), o projeto arquitetônico e o seu acervo de obras de arte é muito reconhecido. Ele está aberto à visitação com marcação antecipada, compra-se o ingresso pela internet. Vá passeando que chegará a bela via Giulia, obra de Michelangelo, onde tem a Fontana del Mascherone, continue e chegará a região do Ghetto judeu. Vou falar um pouco dessa história A presença dos judeus em Roma remonta ao século II A.C, o Ghetto foi delimitado enquanto entidade histórico-urbanística, em 12 de julho de 1555, pelo Papa Paolo IV, a bula Cumnimis absurdum decretava os limites e o horário de fechamento. Em 1848 o Papa IX abriu definitivamente os portões deixando livre o movimento dos judeus. De fato pode-se sustentar que a separação de um núcleo de população não existe mais, do mesmo modo que não existe mais o verdadeiro Ghetto, que foi destruído a mais de cem anos numa operação urbanística, que teve também o significado de redenção de uma histórica constrição de um povo. Mas no conceito comum o Ghetto existe. A inserção nos limites topográficos daquele que foi o antigo Ghetto histórico de uma população judia limitada no número, mas nem por isso menos significativa, faz perpetuar uma tradição judaico-romana expressa tanto nas particularidades do dialeto como na gastronomia. O resíduo material do Ghetto faz referência à continuação de uma memória de um fato histórico de tal duração e consistência que conquistou a característica de uma peculiaridade da vida romana. Uma complexidade de comportamentos, atividades econômicas particulares e coerência de ideais que merecem a mais alta consideração e respeito. Está região de Roma é repleta de restos de monumentos clássicos e de evidentes traços medievais que o período barroco não cancelou, é fascinante andar pelas velhas ruazinhas a procura de sinais de tempos antigos. O mais celebre deles é o Portico d’Otavia, que fica na rua do mesmo nome e onde tem uma confeitaria renomada que se chama Boccioni. A Sinagoga, localizada no lungotevere Cenci(avenida ao longo do rio Tibre) é linda e abriga um museu muito significativo, com objetos litúrgicos judaicos e objetos dos judeus que foram para os campos de concentração na Segunda Guerra Mundial. O museu mexeu com as minhas emoções. Afoto abaixo é da Fonte das Tartarugas também na região do Ghetto.

Pois é amigos vá seguindo o Tevere, do outro lado está Trastevere que é a Roma mais popular e colorida, pare numa cantina, coma uma pasta, beba um vinho e agradeça a oportunidade de estar em Roma. Fico por aqui, arrivederci Roma.

Roseli Cordeiro Pereira

Alta Gracia, onde Che Guevara foi morar para respirar melhor

Quem visita meu blog, sabe que para mim, conhecer os lugares não é só visitá-los e tirar fotos, é saber como o lugar foi se constituindo, como as pessoas foram se agregando e deixando suas marcas, na arquitetura, na culinária, nas festas, nas devoções. Quando fiz o trajeto da nossa viagem pelo interior da Argentina, a cidade de Alta Gracia despertou minha curiosidade, pois fiquei sabendo que Che Guevara havia morado ali e tinha um museu dedicado a ele. Che Guevara me encanta desde minha adolescência, suas idéias, sua coragem e determinação, no final da ditadura militar, abertura política, ter um pôster dele na parede do quarto, era um sonho que passava na cabeça da moçada toda. Infelizmente não consegui colocar um no meu quarto, mas que sonhei, sonhei. Há poucos anos Walter Sales nos brindou, com o belo e delicado filme “Diários de motocicleta”, neste filme um Che Guevara sensível vai mostrando uma America Latina com desigualdades sociais, riqueza cultural e belas paisagens.Não resisti, fui ao cinema dois dias seguidos, chorei, chorei , chorei. O filme só aumentou o encanto e claro que viajando pela província de Córdoba eu iria até Alta Gracia,seria um prazer passar por onde Che andou, brincou, sonhou, além do mais a cidade tem também outros encantos, como a Estância jesuítica, o Museu Manoel Falla,o Tajamar e belos parques.

Estudando um pouco sobre a história da cidade, fiquei sabendo que antes da chegada dos espanhóis a região onde está localizada Alta Gracia se chamava Paravachasca, era habitada pelos Comechingones que estavam ali há mais ou menos 2500 anos. De estatura mediana, pele morena, habitavam casas subterrâneas, conhecidas como “casas pozo”, distribuídas em círculo. Eles usavam irrigação artificial no cultivo de milho, feijão e quinoa, trabalhavam muito bem a pedra e com ela fabricavam morteiros, pontas de flecha e outros instrumentos. As estátuas antropomorfas e zoomorfas de argila mostram uma arte primitiva e severa. Pouco se conhece de sua religião, se crê que eles cultuavam o sol e a lua.

Com o início da colonização espanhola na região, que todos sabemos ter sido sangrenta, onde milhares de nativos foram subjugados, o colonizador Jeronimo Cabrera (fundador de Córdoba) doou as terras da região a Dom Juan Nieto em reconhecimento por serviços prestados, o lugar passou a chamar Alta Gracia em homenagem a Nuestra Senhora de Alta Gracia, padroeira de Algarrovillas de Alconetas, cidade espanhola onde Dom Juan havia nascido. Durante anos a região ficou com apenas alguns poucos ranchos, o herdeiro destas terras Dom Alonso Nieto de Herrera as doou a Companhia de Jesus em 1643, quando nela ingressou, e ali foi criada a Estância Jesuítica de Alta Gracia que chegou a ter produção têxtil, produção agropecuária e principalmente comércio de mulas. Nesta época Córdoba era a capital da Província Jesuítica Del Paraguai, que compreendia os atuais territórios do Paraguai, Brasil, Uruguai, Bolívia e Argentina. A estância de Alta Gracia tinha como objetivo sustentar o Colégio Maximo de Córdoba, lugar da primeira universidade da Argentina e mantinha forte intercâmbio com as outras estâncias jesuíticas.

Outra curiosidade com relação a esta estância é que em 1810 o francês Santiago de Liniers a adquiriu. Este homem foi muito imortante para a história da Argentina, um francês que serviu ao lado dos militares espanhóis e que foi fundamental na recuperação do porto de Buenos Aires quando este foi invadido pelos ingleses em1806, por mérito ele se tornou virrey Del Rio de La Plata entre 1807 e 1809. Com a invasão da Espanha por Napoleão, o rei espanhol Fernando VII foi deposto e José Bonaparte foi proclamado rei. Apesar de lealdade a Espanha, Liniers foi retirado do cargo de Virrey por ser francês, nessa época é que ele comprou a estância e passou ali 5 meses com sua família. Em carta a amigo ele descreve esse período como de grande tranqüilidade. Tranqüilidade que durou pouco, pois com a Revolução de Maio de 1810, Liniers por sua fidelidade a Espanha, foi perseguido pelos patriotas(que lutavam pela independência da Argentina) sendo preso quando tentava fugir para o Alto Peru. Ele foi fuzilado por ordem da Junta de Maio, que com esse castigo pretendia assustar os contra-revolucionarios que não acatavam a autoridade do Primeiro Governo Patrio. Hoje a estância chama Museu Liniers, onde podemos ver as melhorias feitas por ele e mobiliário que pertenceu a sua família. Deixo ai o link para quem quiser aprofundar nesta história.

Depois que conhecemos a estância (museu Liniers), tomamos um café com média luna  olhando para a bela paisagem do Tajamar (um dique de 80 metros de largura) que enfeita a circunvizinhança do museu. Esqueci o nome do café, mas é bem encostadinho, na rua do lado do museu. E ai chegou a hora de rumarmos em direção a casa onde morou o camarada Che Guevara, como estávamos sem GPS, o mapa ajudou e claro alguns pedidos de informação no nosso espanhol, que tantas vezes parecia uma língua falada por ET, e sinceramente contrariando todas as expectativas achei os Argentinos muito gentis, o tempo todo facilitaram nossa viagem.

Enfim chegamos a Villa Nydia, casa construída em 1911, pela Companhia de Tierras y Hoteles,  e declarada Bem Patrimonial pelo Governo Municipal de Alta Gracia  em 2000. Em 2001 abre suas portas como Museu Casa del Che, porque a família Guevara residiu a maior parte dos onze anos que passou em Alta Gracia nesta casa. Che nasceu em Rosário em 1927, mas sua familia decidu mudar-se em 1932 para  Alta Gracia, buscando o clima seco e puro da bela cidade, pois o menino Che que tinha asma e seus pais buscavam soluções para evitar suas crises. Percorrendo as salas do museu vamos conhecendo a história de Che desde sua infância, quando era chamado de Ernestito e lia muito, além de praticar esportes como golfe, com grande tradição na cidade, e gostava também de jogar xadrez. Contam no museu que ele achava o chimarrão indispensável  na hora de jogar e dizia “Ë parte do jogo, há que tomar disso para lubrificar o cérebro e pensar melhor”. Continuando o passeio pelo museu encontrei-me com a motocicleta “poderosa II” retratada no filme Diários de motocicleta, tive de me conter para que meu respeito pelo acervo do museu falasse mais alto, mas confesso que tive vontade de subir nela, fechar os olhos e reviver cenas do filme que me marcou tanto, mas tive de fazer esta viagem de pé em frente a moto. Lá também fiquei sabendo que Che antes da viagem de moto com seu amigo Alberto Granado, havia percorrido 4000 km de bicicleta, esta com um pequeno motor, pelo interior da Argentina.

Em outros espaços do museu me emocionei com os textos de Che e principalmente com as cartas que ele escreveu a seus filhos quando foi para a Bolívia, linda também a que ele escreveu quando da morte de sua mãe. Lágrimas não me faltaram na visita, a família já conhece este meu lado dramático. Durante a visita é projetado um documentário de 20 minutos, bem interessante. O que não combina muito é o preço da entrada do museu, 75 pesos, nada socialista, mas achei interessante que lá não venda lembrancinhas. E mais contente ainda fiquei quando meu filho comprou um belo pôster do Che no Mercado de San Telmo em Buenos Aires, e vai pendurar na parede.

Amigos chegando ao fim da viagem, vale a pena conhecer Alta Gracia, após o passeio pela cidade, siga em direção a Villa General Belgrano( vila alemã, bem turística), no caminho você vai passar por uma região chamada Los Molinos, o visual é de babar. Dando dicas, o restaurante do Golf Club de Alta Gracia é muito recomendado, Calle Carlos Pellegrini 1000,tel-{(03547)425570.Em fevereiro na cidade acontece o Encuentro Anual de las Coletividades, cujo lema é “O mundo todo em Alta Gracia”, com jogos , espetáculos e muita gastronomia.

Já estou com saudades, ainda volto lá, êta mundão de meu Deus.Deixo vocês com trecho do filme Diários de motocicleta.

Roseli Cordeiro Pereira

Córdoba , uma cidade para ser degustada

Como tenho escrito, viajar para mim é a paixão mais antiga das que tenho lembrança, lugares e registros artísticos sempre nortearam meus sonhos de viagem. A Argentina nunca esteve na minha lista de prioridades, cheguei a observar tantas vezes expressão de surpresa em amigos, quando eu falava que não conhecia Buenos Aires. Pois é, só agora conheci Buenos Aires e outros tantos lugares pelo interior da Argentina, e sou sincera ao colocar que a decisão foi um pouco imposta pela questão milhas. Queríamos aproveitar nossas milhas que foram adquiridos em viagens e gastos com cartões de crédito para conhecermos o Equador, país que tem diversas relíquias históricas e belas paisagens. Como a Gol não vai até Quito, decidimos ir até Bogotá e de lá que é bem perto e barato voaríamos para o Equador.  Quando verifiquei que a Gol não voava mais a Bogotá, fiquei bastante desapontada, então a Argentina passou a ser o nosso destino de viagem, onde, eu e a família passaríamos 18 dias em julho. Gostamos de viajar alugando carro, percorrendo estradas vamos observando a paisagem até chegarmos aos lugares eleitos para serem explorados. Decidimos ir de Buenos Aires a Mendoza, no caminho ficaríamos uns dias em Córdoba para conhecê-la e visitarmos as Estâncias Jesuíticas.

Córdoba é uma cidade onde o antigo e o moderno, se mesclam o tempo todo, Jerônimo Luiz de Cabrera, conquistador espanhol, vice rei do Peru e governador do Tucuman,fundou a cidade em 1573, chamou de Córdoba de La Nueva Andalucia. Sua estátua está em uma praça central da cidade. A história da cidade ficou definitivamente marcada pela presença dos jesuítas. A Companhia de Jesus foi fundada por Santo Inácio de Loiola e alguns companheiros, o seu primeiro objetivo foi missionarista, de espalhar a fé cristã, não estando previsto que fosse uma ordem religiosa consagrada ao ensino. Como Santo Inácio de Loiola e os outros membros da companhia tinham freqüentado a Universidade pensaram em abrir “casas” ou “residências” junto das Universidades onde formariam os novos membros da companhia. Só mais tarde estas residências se transformariam em colégios. Jerônimo Nadal adere a companhia de Jesus a convite de São Francisco Xavier em 1545 e fica incumbido de elaborar os primeiros programas de ensino e de introduzir o Modus parisiensis(conjunto de normas pedagógicas que caracterizavam o ensino parisiense e lhe conferiam uma personalidade única e original. Os jesuítas chegam Córdoba em 1587 e em 1599 fundam a primeira casa da companhia nessa cidade, construída em terrenos cedidos pelo Cabildo local anos mais tarde nesse lugar se levantará a Igreja da Companhia de Jesus e o Colégio Máximo em 1613, que dará origem a primeira universidade do pais.

Esta história está preservada na cidade no conjunto arquitetônico conhecido por La Manzana Jesuítica, que é composto pela antiga sede da Universidade Nacional de Córdoba, pela Igreja da Companhia de Jesus, pela Capela doméstica, pela Residência e o Colégio de Monserrat. O conjunto foi tombado pela Unesco em 2000 como patrimônio cultural da humanidade. Vale a pena fazer a visita guiada, que acontece algumas vezes ao dia, com horários em inglês e  espanhol, custa 10 pesos, não precisa reservar é só chegar um pouco antes do horário na sala de entrada da universidade, fui no horário de 3 horas, em espanhol, o guia ótimo. O endereço é: Calle Obispo Trejo 5000.

Andar pelo cento histórico é muito fácil na Praça General San Martim, que é linda, está a Catedral e o Cabildo, que merecem visita. No prédio do Cabildo ao lado da Catedral, está o Museu de La Memória, uma bela homenagem aos perseguidos políticos pela ditadura militar, que na Argentina como no Brasil, Paraguai,Chile e tantos outros países,prendeu, torturou e assassinou diversas pessoas, manchando para sempre a história da América Latina.

Passear por Córdoba significa um encontro com a música, é impressionante como tem músicos tocando nas esquinas do centro, é bom ficar curtindo, vendo as pessoas circularem, é uma cidade alegre, viva. Além de tudo com uma gastronomia de dar gosto, os alfajores cordobeses são uma iguaria, não deixem de conhecer a fábrica La Costanera, é de 1927, toda preservada, continua nas mãos da mesma família,parece túnel do tempo, as receitas são explicadas gentilmente pela proprietária. Lembrando minha boca enche d’agua, lembrar do restaurante de comida árabe Al Malek também me trás a mesma sensação, se quiser experimentar, vá antes das nove da noite nos finais de semana ou reserve, fica lotado.Córdoba entrou no meu coração, lá o pão do café da manhã não é o francês ele tem identidade,  e  se chama criollito, eu gostei muito, claro que em todos os lugares tem a média luna. Se quiser um sanduíche experimente o do Café Sorocabana, também cheio de história, inclusive contada em seu jogos americanos de papel, lá o lomito é delícia como diz uma amiga.

Pois é amigos, pretendo escrever mais sobre a região de Córdoba no próximo post, contar das estâncias jesuíticas, e do Museu Casa de Che Guevara em Alta Gracia. Afinal a viagem foi longa, durante o caminho vi desertos e homenagens ao Gauchito Gil, o santo popular argentino, e também tive uma certeza Las Malvinas son Argentinas.

Roseli Cordeiro Pereira

Você sabia que a capital da Eslovênia se chama Liubliana?

A pergunta, ”você sabia?”, ecoava pela casa sempre que meu pai estava, ele adorava escutar a rádio relógio, que durante sua programação entremeava curiosidades às informações sobre horário, na bela voz de Iris Letieri. Eu sempre estava atenta a respeito dos países, suas capitais, seus climas, seus povos, regime político. Penso que meu gosto por curiosidades é doce influência dessa época Os países do leste europeu sempre despertaram maior curiosidade e até certo receio, eram socialistas. Desses países a antiga Iugoslávia, junto com a Hungria, sempre foram foco maior da minha atenção.Na Itabira da minha infância, onde moravam poucos estrangeiros, tínhamos um vizinho que era de lá. Para mim sua família tinha uma aura diferente, seu filho Miroslav estudou comigo, eu o enchia de perguntas sobre aquele país tão distante, ele não sabia responder, hoje avalio que ou eu era um pouco “aluguel”, ou então ele não era tão interessado. Os anos passaram, fui fazer estágio em saúde mental na cidade italiana chamada Trieste, fiquei pertinho da antiga Iugoslavia, mas como era época da guerra dos Bálcãs, não tive coragem de ir a Lubliana, capital da recém criada República Eslovena. O tempo continuou passando e a vontade de ir a essa região ficou adormecida, ao conhecer um pouco da obra do filosofo esloveno Slavoj Zizek, a vontade despertou. Quando tive oportunidade de realizar o sonho de conhecer a Hungria, convenci a família que passaríamos pela Eslovênia na ida e retornaríamos pela Croácia. Enfim um pouco da antiga Iugoslavia poderia fazer parte das minhas lembranças mais concretamente.

E agora, recordando a rádio relógio, sendo um pouco almanaque, vou fazer a pergunta. Você sabia que a Eslovênia é um país localizado na região dos Balcãs, que sua área é de 20.253 km, que faz fronteira com a Croácia, Austria, Itália e Hungria, que tem uma costa de apenas 46.6 km, que é majoritariamente católico e que sua capital Liubliana fica no centro do país? Pois é, caros amigos, nessa região inclusive foi encontrado o instrumento musical mais antigo do mundo, uma flauta doce, feita de fêmur de urso, de 50.000 anos. Nos séculos IV e III a.c chegaram os Celtas e fundaram um estado chamado Noricum, a partir daí foram dominados por Romanos, Hunos, Germânicos. Os Eslavos de quem os atuais eslovenos descendem chegaram no sec VI d.c e fundaram o ducado de Carantania. A Eslovênia também passou por domínio dos Baváros, dos Francos e de 1335 a 1809 ficou sob domínio do Império dos Habsburgos.Napoleão com seus ideais imperialistas, invadiu a região em 1809 e formou as províncias Ilíricas, compostas pela, Eslovênia, Sérvia, Croácia, Bósnia- Herzegovina e Montenegro, cuja capital era Liubliana, a forte reação da região acabou com a invasão em 1813, quando voltaram a pertencer aos Habsburgos, que posteriormente em 1867 passou a ser Império Austro-Húngaro.

A primeira Grande Guerra trouxe muito sofrimento, pois grande parte da fronteira entre o Império Austro- Húngaro e a Itália ficava na parte Eslovena. Durante dois anos travaram as mais sangrentas batalhas. Ao final da I Guerra os limites não foram estabelecidos de acordo com as fronteiras étnicas, mas de acordo com interesses políticos, um exemplo típico dessa situação é Trieste e outras cidades da costa adriática que pertenciam a Eslovênia e Croácia e que passaram a pertencer à Itália, por vontade do Reino Unido. Terras que foram prometidas do Império Austro- Húngaro, para que a Itália mudasse de lado em 1915.

Após a I Guerra foi criado o Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, este nunca foi muito pacífico, pois os estados que o compunham tinham percursos históricos diferentes. Em 1929 passou a se chamar Iugoslávia e a ser uma ditadura, os estados foram divididos em Banovinas.Em 1941, foi invadida pelas tropas alemãs e italianas, Josip Bros (que ficou conhecido por Tito) foi da resistência Iugoslava e com o final da Segunda Guerra foi nomeado primeiro ministro. Após as eleições, ganha pelos comunistas, foi proclamada a República Federal da Iugoslávia, da qual a República Popular da Eslovênia fazia parte. Tito passou a ser ditador, organizou uma economia socialista e já em 1947 toda a propriedade privada já havia sido nacionalizada.

Em 53, Tito rompeu com os países comunistas, o que não agradou a URSS, ele construiu o chamado “comunismo nacional”, que deu frutos, vivia-se melhor na Iugoslávia que nos outros países do leste. Tito morreu em 1980 e essa década viu o aumento do nacionalismo. Na Eslovênia se manifestava em revistas como Tribuna, Mladina, Problemi e Nova Revija. O ano de 1990 trouxe eleições livres e a 23 de dezembro foi realizado um referendo no qual mais de 88% dos Eslovenos afirmaram querer a independência. Em 25 de junho de 1991 declararam a independência, seguiram-se 10 dias de guerra, na qual os Eslovenos venceram os Sérvios e passou a ser o primeiro estado independente dentre as repúblicas da ex- Iugoslávia. Uma Nação que de tanto ser Nação conseguiu conquistar um Estado.

Na capital Liubliana (Ljubljana em esloveno), nós chegamos em um final de tarde nublado. Como não tínhamos feito reserva em hotel, fomos até a estação ferroviária central, onde no serviço de informações sobre hotéis nos indicaram o Hostel Celica. Não foi difícil localizá-lo, um lugar alegre com pessoas de diversas partes do mundo. Como estávamos com fome, logo pedimos dica de um lugar onde a comida e o astral tivesse a ver com o país. A recepcionista nos indicou o restaurante Sokol.

Diga-se de passagem, ótima referência, um ambiente bacana, decorado com muita madeira, aconchegante. Eu já quis logo de cara experimentar o gulash (que é originalmente húngaro) que veio numa panelinha pendurada num apoio

Quando voltei, passei alguns meses fazendo esse prato para os amigos, comprei tanta páprica na Hungria que parecia que iria abrir uma representação. Acontece comigo quando volto de viagem, fico no clima alguns meses, não importa se é no Brasil ou não. A cerveja do local é ótima, se chama Sokol também, nossa querida Eliza carregou uma garrafa de lembrança por toda a viagem, mas infelizmente a esqueceu na Itália.

Na cozinha eslovena o rolinho de farinha de trigo com recheio variável chamado Struklji é uma especialidade, junto com salsichas e queijo, principalmente da região de Bohini. O que verdadeiramente aguça o  paladar na Eslovênia são os bolos e tortas. O bolo de nozes chamado Potica é o mais famoso, Flancati e Prekmurska gibanica também são reconhecidissimos. A foto abaixo é do Prekmurska gibanica.

Prekmurska gibanica

Liubliana é uma cidade linda, sua arquitetura é principalmente austríaca, a cidade é cortada pelo rio Ljubjanica e suas margens ligadas por belas pontes, os protetores de árvores são delicadamente confeccionados em ferro, que também compõe diversos outros detalhes da cidade. O arquiteto Joze Plecnik é um esloveno com reconhecimento internacional, a Biblioteca Nacional e o Mercado Coberto são obras dele além de intervenções em traçados urbanos. Andando pela cidade que tem seu centro histórico relativamente pequeno e fácil de percorrer, nos deparamos com a bela Ponte do Dragão, a famosa Praça Preseren(homenagem ao seu mais famoso poeta), que é ponto de encontro da cidade e onde fica a entrada da igreja de São João, imortalizada no livro de Paulo Coelho “Verônica decide morrer”.

A catedral merece uma visita e claro o Castelo é o ponto alto da cidade. Os eslovenos trabalham artesanato em ferro, madeira,argila, vidro e palha, sua renda é famosa, sendo que a escola de renda de Idrija fundada em 1876, funciona até hoje.Infelizmente não foi possível ficar mais de dois dias, tínhamos muito caminho pela frente, ficamos sem conhecer muita coisa, mas o que vimos valeu a pena.

Roseli Cordeiro Pereira